[Valid RSS] [Valid RSS] [Valid RSS] Labirintos e Fascínios: Março 2015

15 de março de 2015

É de mim que sinto saudades

É muito comum ouvirmos mulheres de todos os tipos queixando-se de suas vidas, principalmente quando estão há muito tempo envolvidas com alguém. Queixam-se de que não dançam mais, que não cantam, que não exercem a sua sensualidade, que estão ficando velhas e secas mais depressa do que imaginavam.
Queixam-se da falta de romantismo em que suas vidas se inseriram. Queixam-se dos homens que amam e dos filhos que este amor gerou. Queixam-se de Deus e do mundo ao seu redor. Chegam quase a se arrepender da opção de partilhar a vida com alguém.
Numa relação estável é muito comum que a mulher conste como a parte menos conformada da situação e que logo, com poucos anos de convivência, se sinta anulada e cobrando caro toda a dedicação dispensada ao convívio (ao bom e sereno convívio), entre ambos.
Um erro muito frequente está intrínseco ao fato de a mulher fantasiar demais antes de se relacionar intimamente e estavelmente com um homem. Além disso, ela tem uma enorme tendência a se responsabilizar por toda a felicidade que o casal possa ter e mais tarde, cansada de assumir sozinha todos os sonhos e as ilusões de romance eterno entre os dois, ela passa de fada encantadora a bruxa cobradora.
Não que os homens não tenham sua parcela de responsabilidade na monotonia e falta de graça que circunda a vida do casal, é claro que tem. Eles poderiam ao menos prestar atenção ao que é manifestado pela sua mulher como fator de contentamento dentro do relacionamento.
Sair para dançar com ela uma vez por mês, elogiar sua postura e aparência de vez em quando, isso não mata ninguém, convenhamos. Acontece que, com sua natureza hermética, o que é uma característica de grande parte dos homens, não participa dos planos da parceira para uma vida cercada de emoções e contribui sobremaneira para a falência de todo e qualquer projeto de comporem um casal diferente.
A mulher, que sonha alto demais e tem uma enorme dificuldade em se adaptar a uma vida a dois mais serena e quase isenta dos suspiros dos contos de fada, sofre verdadeiramente. Frustra-se, entristece e se revolta.
No sexo não é muito diferente. O comportamento sexual é inerente ao sucesso da relação. Não existe bom relacionamento conjugal sem bom sexo e não existe bom sexo sem um bom relacionamento conjugal. O que às vezes abala esta estrutura é o fato de um dos dois, e muito mais as mulheres, acharem que em toda vez que o sexo acontecer, ter que ser algo perfeito e cercado de sentimentos, emoções, fantasias, pétalas de rosas, velas e todo o tipo de aparato que deve sim ser usado o máximo possível, mas que às vezes é perfeitamente dispensável. E no caso deles... Precisa mesmo falar?
São normalmente nestes momentos que a saudade bate forte na mulher. É muito nesta hora também que ela tende a se sentir usada, termo muito comum para explicar o descontentamento feminino perante o sexo com o parceiro. Se sente usada como um objeto de prazer sem que haja com ela a mínima observação, o mínimo elogio ao seu corpo bem tratado, a maciez da sua pele cultivada com a intenção de sempre agradar, com o perfume na medida certa, com os esforços para se revelar a cada dia uma amante indescritível.
A saudade vem como um grito de socorro e desejo de se ver novamente cortejada, seduzida e conquistada pelo homem que ela ama. E ela se remete a um tempo em que até uma simples cruzada de pernas era objeto de fascínio para ele. A um tempo onde ela podia até se dar ao luxo de dizer "não", "fica quieto", "agora não é hora disso", entre risinhos mal intencionados.
A saudade vem da incompreensão ao comportamento masculino que denota claramente que após conquistar a sua presa, faz com ela um sexo com cara de simples masturbação, desprezando todo seu empenho para manter o relacionamento em alto nível de desejo e satisfação. Elegância e cavalheirismo podem resolver isto.
Lembrei-me agora de um fato interessantíssimo. É publico que, hoje em dia, as mulheres casadas, maduras, mães de família, estabilizadas profissionalmente, estão usando todo tipo de artifícios que as equiparem às profissionais do sexo para manterem fieis os seus maridos.
E elas são campeãs, porque fazem isto por adivinhação tendo em vista a dificuldade do homem em manifestar para as parceiras fixas, as suas mais secretas fantasias eróticas. "Não se fala dessas coisas com a mulher da gente". Andam ávidas por produtos de Sex shops. Espartilhos, algemas, chicotes, cremes que esquentam, cremes que gelam, calcinhas com sabor, ufa. Uma parafernália, capaz de montar um cenário de filme pornô. E nem sempre dá certo, isto é o pior. São classificadas como ridículas.
Segurança, autenticidade no comportamento diário, cuidado básico com o corpo e a saúde, equilíbrio e contentamento com ela própria, pode ser a chave para uma relação plena a dois. Bom senso costuma também ser a solução certa para evitar conflitos de toda natureza. Pode ser o tiro certeiro.
O homem que também espera que sua parceira seja sempre aquela tigresa voraz que o fazia sentir-se como o único na face da terra, tem que dar um desconto aos períodos onde ela se volta mais para a família, para os filhos, para o crescimento profissional, ou onde a TPM impera e reina como déspota. Nestas horas é bom usar a razão e a ponderação para acalmar os seus ânimos e não sair por aí fazendo besteiras que coloquem em risco um amor que tinha tudo para dar certo. Paradoxalmente, a saudade dele bate exatamente no tempo em que ela fazia de tudo para que a vida deles fosse um turbilhão de emoções, mas na maioria das vezes ele nem sabe explicar isto.
O remédio, como sempre, é manter a cabeça fria e não se entregar a impulsos que levem a atitudes inconseqüentes e capazes de causar muito sofrimento. Cada um tem a sua receita e a sua medida, basta usar.
Sexo, amor, paixão e coerência, é possível! Talvez machuque menos.
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Autora: Jussara Hadadd .
Terapeuta holística, especializada em sexualidade


11 de março de 2015

Um cão apenas- Cecília Meireles


Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim – plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito eis-me no patamar. E a meus pés, no áspero capacho de coco, à frescura da cal do pórtico, um cãozinho triste interrompe o seu sono, levanta a cabeça e fita-me. É um triste cãozinho doente, com todo o corpo ferido; gastas, as mechas brancas do pêlo; o olhar dorido e profundo, com esse lustro de lágrima que há nos olhos das pessoas muito idosas.
Com um grande esforço, acaba de levantar-se. Eu não lhe digo nada; não faço nenhum gesto. Envergonha-me haver interrompido o seu sono. Se ele estava feliz ali, eu não devia ter chegado. Já que lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse: também os animais devem esquecer, enquanto dormem… Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves, acomodando as patas da frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou de um gesto. Mas eu não o queria vexar nem oprimir.
Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento… Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica.

Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens. Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a descer as escadas e as suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.
Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era, no entanto, uma forma de vida. Uma criatura deste mundo de criaturas inumeráveis. Esteve ao meu alcance, talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir, assim, humilhado, e tão digno, no entanto; como alguém que respeitosamente pede desculpas de ter ocupado um lugar que não era o seu.

Depois pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.