[Valid RSS] [Valid RSS] [Valid RSS] Labirintos e Fascínios: Janeiro 2013

29 de janeiro de 2013

Invoquei as forças do Universo. Senti-me poderosa e livre.


À esquina da tarde, quando a luz rósea do Sol se preparava para abraçar o mar, subi a uma rocha solitária e majestosa e olhei pausadamente o horizonte. Uni o polegar e o indicador, virados para cima, arqueei o corpo e invoquei as forças do Universo. Sentia-me poderosa e livre, prestes a levitar.
O tempo sentia-se suspenso. Parado. Nem o vento respirava. A serenidade parecia envolver o Mundo naquele começo de noite mágico, estonteante de encanto, soberbo de magia. Electrizante e iluminador. Do céu caíam partículas cintilantes, poeira de estrelas, que rapidamente cobriram a rocha, deixando-a como um trono cravado num invulgar rochedo.
Depois, o céu abriu-se num tom púrpura, cintilando entre o laranja e o verde-esmeralda. Foi um estonteante festival cósmico envolto em sons harmoniosos com vozes angelicais e acordes magníficos. O desejo de absorver tudo o que via e o querer que algo me fosse revelado, agitava-me. Baixei os braços com as palmas das mãos viradas para cima, esperei por brisas renascidas e desejei que uma chuva macia me envolvesse em âmbares e cristais e me fizesse sentir entre o sonho e a realidade.
Fiquei, como diz a lenda védica, com a leveza da folha, a graça da corça, a alegria do Sol, as lágrimas do orvalho, a inconstância do vento, a timidez da lebre, a dureza do diamante, a crueldade do tigre, a doçura do mel, o calor do fogo, o frio do gelo, o perfume das rosas.
Rodeada de luares, energias e exércitos de átomos, vindos do agora e dos confins do tempo, inspirei as vibrações do Universo e entrei em mundos poderosos e secretos, abertos por uma exclamação mística, dita sete vezes seguida com a voz mais poderosa: a voz do pensamento.
Luminosa e leve, tal como Fernão Gaivota (que vive em cada um de nós) olho agora as minhas asas alvas, adquiridas no Rochedo da Transformação e, então, tal como diz Gaivota, quebro as correntes do pensamento e deslizo sem pudor neste voo da noite.
Senti-me especial e divina. Fernão Capelo lembrou-me (uma vez mais) que não há limites. Lembrou-me a necessidade de superar as nossas fragilidades, medos e lançarmo-nos nos voos da descoberta e da realização. Ao despedir-me do Gaivota, que se preparava para voar dois mil e quatrocentos metros e aterrar em voo picado, ainda me gritou: “não te esqueças nunca de que a verdadeira Lei é aquela que conduz à Liberdade”

(Maria Elvira Bento)


18 de janeiro de 2013

Sorria...


Sorria, mas não se esconda atrás deste sorriso.
Mostre aquilo que você é, sem medo.
Existem pessoas que sonham.
Viva. Tente. Felicidade é o resultado desta tentativa.
Ame acima de tudo. Ame a tudo e a todos.
Não faça dos defeitos uma distância e, sim uma aproximação.
Aceite. A vida, as pessoas.
Faça delas a sua razão de viver.
Entenda os que pensam diferentemente de você.
Não os reprove.
Olhe à sua volta, quantos amigos...
Você já tornou alguém feliz?
Ou fez alguém sofrer com o seu egoísmo?
Não corra...
 Para que tanta pressa?
Corra apenas para dentro de você.
Sonhe, mas não transforme esse sonho em fuga.
Acredite! Espere!
Sempre deve haver uma esperança.
Sempre brilhará uma estrela.
 Chore! Lute! Faça aquilo que você gosta.
Sinta o que há dentro de você.
Ouça... Escute o que as pessoas têm a lhe dizer.
É importante. Faça dos obstáculos degraus para aquilo
que você acha supremo.
Mas não esqueça daqueles que não conseguiram subir
a escada da vida.
Descubra aquilo de bom dentro de você.
Procure acima de tudo ser gente. Eu também vou tentar.

(Autor desconhecido)

Relembranças de mim outrora...



Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite. Ninguém avisava nada, o costume era chegar de pára-quedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre. E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... Casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas– e dizia:
– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... Tudo sobre a mesa. Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também.
Pra quê televisão? Pra quê rua? Pra quê droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... Era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa... A mesma alegria se repetia. Quando iam embora também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... Até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!... – ninguém quer entrar mais.
Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas.. Pra quê abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos, do leite...
Que saudade do compadre e da comadre!
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Autor: José Antônio Oliveira de Resende
Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.
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