[Valid RSS] [Valid RSS] [Valid RSS] Labirintos e Fascínios: Fevereiro 2012

28 de fevereiro de 2012

A alegria de existir...



Amo tão profundamente a vida
que esta mesma vida me dá como que o prémio de continuar vivendo
 em alegria e em comunicação com o UNIVERSO.
É esta comunhão que me sustenta
na embriagada contemplação do quotidiano cósmico!


Por toda a parte sinais de vida,
de luz, de música, de movimentos, de gestos,
sendo indiferentes aos que sonharam e jamais puderam participar 
desta natural e inesquecível alegria de existir!...
E é nestes instantes mais vivos que me dói a vida.
Uma grande emoção se apodera de mim.


Contemplando o céu, vendo bem as estrelas,
impõe-se imperativamente o AMOR,
tão desamparados estamos no Universo.
Só a fraternidade nos pode salvar da SOLIDÃO DA VIDA.

(A. de Gusmão)

26 de fevereiro de 2012

Erotismo e sensualidade na lírica de Glória Tupper

Na minha estréia na blogosfera até chegar à descoberta de que nem tudo nela é uma viagem errante através de uma nebulosa, na qual nada realmente gratificante e proveitoso há para oferecer, levou um alargado e desperdiçado tempo que, graças a Chronos já não passa de poeira de vagas lembranças destinadas à terra do olvido absoluto. Na medida em que, em minhas deambulações, fui descobrindo o lado luminoso e fascinante que existe no mundo virtual, retomei o entusiasmo por este universo paralelo que se abre em possibilidades múltiplas de realizações e de contatos sociais muito gratificantes.
Todavia, o que não esperava encontrar era o elo quase perdido com a literatura feminina. E ele ali estava, diante de mim, na melhor e mais prazerosa surpresa que me foi a descoberta de mulheres escritoras, talentosas e inteligentes, autoras de poesias, narrativas de ficção e crônicas de grande interesse e qualidade estético-literários. Apaixonada pela literatura, especialmente a que é produzida pelas mulheres, senti-me feliz por ter encontrado o porto seguro que buscava na leitura dos textos de Glória Tupper, de Mariza Lourenço e de Layla Lauar, três talentosas escritoras e mulheres de personalidades fortes, modernas e antenadas com formas de poetar em voga nos horizontes da melhor expressão literária.
Todavia, antes de entrar na apresentação e comentários dos textos poéticos de Glória Tupper necessário se faz algumas ponderações sobre a poesia erótica, gênero dominante do discurso da escritora, como é no de tantas mulheres que ousaram e ousam, desenvoltas e cheias de dignidade, libertarem-se dos espartilhos da auto-censura, do receio de exteriorizarem suas emoções, seus sentimentos e os seus multifacetados desejos vividos e/ou imaginados.
A poesia de Glória Tupper se inscreve na vertente erótica do lirismo contemporâneo, desenvolvendo a temática do corpo liberto dos tentáculos da repressão. Ela segue pelos caminhos libertários dos que fazem uma literatura transgressiva em relação aos tabus culturais e religiosos que interditaram durante séculos, principalmente à mulher, a expressão da sua sensualidade. Com efeito, Glória busca exatamente realizar uma literatura que se erga como um libelo em favor da liberdade de expressão. Se tivesse tentado publicar tais poesias até a década de cinqüenta do século XX, decerto teria sido esmagada pela crítica defensora da moral (falsa moral) e dos bons costumes, como foram tantas escritoras até meados do século passado.
Vale lembrar que, apesar da revolução modernista, somente após a segunda guerra mundial as mulheres começaram a invadir o círculo fechado da literatura. No início, ainda timidamente, depois com ímpeto e atitude, figuras femininas notáveis estreavam nas letras, não apenas em quantidade surpreendente como em qualidade excepcional. Nas obras destas poetas, além da evidente identificação com as “novidades” estéticas e temáticas trazidas ou ressuscitadas pelos modernistas, avulta a retomada do discurso erótico inaugurado no lirismo feminino português por Florbela Espanca e Judith Teixeira e, no Brasil, por Gilka Machado. Tal retomada foi, talvez, uma tomada de consciência por parte das mulheres do quanto ainda havia de repressão no que toca a expressão da sexualidade feminina, seja na vivência íntima de cada uma, seja do próprio discurso literário, amordaçado para qualquer manifestação erótica por parte dos ideólogos e defensores da moral e dos bons costumes.
Nas derradeiras décadas do século XX, as poetas já não se adequavam ao desgastado figurino da poesia confessional, da expressão sentimental, mais das vezes voltado para a retórica da infelicidade, da dor e das lágrimas que vinha ameaçando perpetuar-se no lirismo feminino. A poesia da geração de mulheres surgida após a revolução modernista, especialmente em Portugal, nutrira-se na seiva de uma consciência mais aguçada acerca da realidade do amor, da verdade do corpo, do direito de ser mulher e, principalmente, da urgência de um grito de independência, de busca da plena liberdade de expressão. O lirismo feminino assumiu uma dimensão vivencial, revelou-se na plenitude de sua humanidade e temporalidade. Esta poesia quase não fala de dor, fala de amor, de desejo, de luxúria, de prazer e de felicidade. Nela a expressão do amor sensual é uma “festa do corpo”, como bem testemunha a poesia de Glória:

Highway
Meus espaços te anseiam
Todo meu corpo arde
Em tremores de desejo
Em lembranças de prazeres vividos.

Conheces meus caminhos
Que se abrem em via de mão única
E por onde percorres com perícia,
Por onde passeias tuas audácias

E onde não há sinal fechado.
Mas se houver, ah, por favor!
Ultrapasse!

A partir da década de 70, a liberdade da linguagem acentuou-se. As escritoras tomaram as rédeas do seu discurso, libertam a linguagem feminina de todas as interdições e tabus milenares, deram expressão poética ao erotismo, enriquecem o repertório temático da poesia com temas transbordantes de sentimento estético da sensualidade, do desejo, da fruição dos prazeres do corpo. A nova linguagem obedecia a uma nova gramática, exigia que se lesse a poesia com o espírito despojado de malícia, da noção cerceadora do pecado e livre do peso da culpa.

Cadência
Gosto quando se enrosca
Entre minhas pernas
E me faz arrepiar.

Gosto quando suprime meus sentidos
Num gozo alucinante
Onde tudo é pulsar.
Gosto de suas palavras doce

Tanto quanto amo as mais sórdidas.
Com você sou namorada
Me transformo em amante
Viro mulher da vida
E voto a ser menina.

Porque seu corpo é uma máquina perfeita
Que pulsa na cadência
Exata, precisa
Do meu infinito desejo.

Talvez pela primeira vez, na poesia feminina posterior aos anos cinquenta, a mulher tenha ousado expressar o seu encantamento com o corpo do homem, com a beleza das formas masculinas. Já não é mais o homem o único a falar do seu desejo, da sedução do corpo da mulher amada, do mágico delírio que o seu toque desata.

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23 de fevereiro de 2012

Poema em linha reta



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semiduses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

ÁLVARO DE CAMPOS
(heterônimo de Fernando Pessoa)


O “Poema em linha reta” começa com um verso que pode causar estranheza: “Eu nunca conheci quem tivesse levado porrada”, ao qual se segue o desenvolvimento da idéia centralizadora que o poeta deseja comunicar. Emanada da comparação que ele faz de sua pessoa com todas as outras que conhece ou que conheceu ao longo de sua vida. De tal cotejo, assoma-lhe o sentimento de ser ele um ser singular, único, diferenciadamente inferior aos demais que têm sido campeões em tudo. Esta constatação o irrita, pois revolta-o o fato de se ver rodeado, como ele afirma – “por príncipes” e “semideuses”.
E, como ele mesmo diz, mesmo quando os outros confessam, em raros momentos de franqueza, quando fazem tímidos comentários acerca dos seus erros, tratam logo de esclarecer seus equívocos, protegendo-se, cuidadosamente, de eventuais ameaças de desmoralização. Podem, vez ou outra, revelar falhas leves, mas calam sistematicamente quaisquer ações espúrias tenham praticado. Posem até confessarem ter cometido violências, mas guardam segredo acerca das suas fraquezas e covardia.

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22 de fevereiro de 2012

A Crônica, Amor e outros males, de Rubem Braga.

 
A Crônica

A crônica não é um gênero maior, já escreveu Antonio Candido. Graças a Deus, completa o crítico, porque sendo assim ela fica perto de nós. (...) Na sua despretensão, humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição.
Fruto do jornal, onde aparece entre notícias efêmeras, a crônica é um gênero literário que se caracteriza por estar perto do dia-a-dia, seja nos temas, ligados à vida cotidiana, seja na linguagem despojada e coloquial do jornalismo. Mais do que isso, surge inesperadamente, como um instante de alívio para o leitor fatigado com a frieza da objetividade jornalística.
De extensão limitada, essa pausa se caracteriza exatamente por ir contra a tendências fundamentais do meio em que aparece, o jornal diário.
 
AMOR E OUTROS MALES
Não, minha senhora, não amo ninguém; o oração está velho e cansado. Mas a lembrança que tenho de meu último amor, anos atrás, foi exatamente isso que me inspirou esse vulgar adjetivo – "incômodo". Na época eu usaria talvez adjetivo mais bonito, pois o amor, ainda que infeliz, era grande; mas é uma das tristes coisas desta vida sentir que um grande amor pode deixar apenas uma lembrança mesquinha; daquele ficou apenas esse adjetivo, que a aborreceu.
Não sei se vale a pena lhe contar que a minha amada era linda; não, não a descreverei, porque só de revê-la em pensamento alguma coisa dói dentro de mim. Era linda, inteligente, pura e sensível – e não me tinha, nem de longe, amor algum; apenas uma leve amizade, igual a muitas outras e inferior a várias. A história acaba aqui; é, como vê, uma história terrivelmente sem graça, e que eu poderia ter contado em uma só frase. Mas o pior é que não foi curta. Durou, doeu e – perdoe, minha delicada leitora – incomodou.
Eu andava pela rua e sua lembrança era alguma coisa encostada em minha cara, travesseiro no ar; era um terceiro braço que me faltava, e doía um pouco; era uma gravata que me enforcava devagar, suspensa de uma nuvem. A senhora acharia exagerado se eu lhe dissesse que aquele amor era uma cruz que eu carregava o dia inteiro e à qual eu dormia pregado; então serei mais modesto e mais prosaico dizendo que era como um mau jeito no pescoço que de vez em quando doía como bursite.
Eu já tive um mês de bursite, minha senhora; dói de se dar guinchos, de se ter vontade de saltar pela janela. Pois que venha outra bursite, mas não volte nunca um amor como aquele. Bursite é uma dor burra, que dói, dói, mesmo, e vai doendo; a dor do amor tem de repente uma doçura, um instante de sonho que mesmo sabendo que não se tem esperança alguma a gente fica sonhando, como um menino bobo que vai andando distraído e de repente dá uma topada numa pedra. E a angústia lenta de quem parece que está morrendo afogado no ar, e o humilde sentimento de ridículo e de impotência, e o desânimo que às vezes invade o corpo e a alma, e a "vontade de chorar e de morrer", de que fala o samba?
Por favor, minha delicada leitora; se, pelo que escrevo, me tem alguma estima, por favor: me deseje uma boa bursite.
_________________
Rubem Braga (1913-1990) foi cronista, poeta, repórter, tradutor e crítico de artes plásticas. Escreveu grandes obras como: Casa do Braga, O Conde e o Passarinho e Três Primitivos . Tornou-se conhecido do grande público ao escrever crônicas em jornais de grande circulação.
Na crônica de Rubem Braga retrata um fato do cotidiano, porém a maneira de narrar o fato dá a essa crônica a característica da universalidade que distingue o autor tornando-o um renovador da crônica brasileira. O assunto é simples: explicar a uma leitora, que lhe enviou uma carta, os motivos que o levam a considerar o amor uma fonte de males, uma coisa incômoda, a partir da sua própria experiência. 
 
 

20 de fevereiro de 2012

Pensamentos em fragmentos



O Amor é a força que nos vincula bem à nossa condição humana. 
O Amor ri-se de tudo, de todos os nossos interesses materiais, sociais, particulares,
de saúde, de fortuna, de tudo, enfim!
Não há regras, nada que lhe seja sujeito na hora própria em que,
como um raio tempestuoso,
estaria entre dois seres.
É a força que, felizmente, contraria tudo o que o homem artificialmente construiu.
O Amor e, na verdade,
o que está para além do Bem e do Mal.
O Amor é a única realidade que nos subjuga.


Quanto mais o passado se acumula em mim, cada vez mais vivo menos de recordações.


Para sobreviver, matei a memória: Esqueci!


(A. de Gusmão. 1959)

16 de fevereiro de 2012

A poesia erótica de Glória Tupper...



Hoje, quero apresentar às pessoas que lêem este  blog uma poeta, minha amiga Glória Tupper, autora de poesias eróticas de muita qualidade. A sensibilidade com que expõe a sensualidade espontânea e refinada que, pela linguagem da poesia, emana do seu ser, transitando em cada verso.

PERTO DE TI

Perto de ti eu descompasso
Teu cheiro me provoca
Teu toque me instiga
Teu corpo me chama
E te desnudo com o olhar.

Perto de ti sou puro instinto
Sou animal irracional, voraz
Sou a caça que te caça
Caçadora que te domina
A presa que a ti se rende.


- CADÊNCIA -
*
Teu hálito atrevido
Desliza pela minha nuca
Escorre entre meu querer
E tua urgência mergulha em mim.
*
Meu corpo é chama que teu verbo alimenta
E que tua respiração nua veste
A reger minha sinfonia
De notas compassadas.
*
Teu cálculo é preciso
Sábio e generoso
E me banho em teu rio
A lavar-me o calor das entranhas.


(Glória Tupper)
Fonte: http://avessodemulher.blogspot.com


15 de fevereiro de 2012

Emoções!

Fim de manhã, depois de haver escrito uma linda carta cheia duma grande carga afetiva, para descansar, pus a tocar o disco da "Música do Renascimento".
Deitei-me na chão, sobre a macia alcatifa e, assim, ouvi comodíssimo essa música antiga, que ainda pode e com tanta simplicidade vir remexer a gente no mais íntimo de nós próprios
A voz celestial de Jenifer Smith e a beleza tão simples dessas canções antigas fizeram-me cair lágrimas pela face.

Chorei de felicidade!

Sou como uma corda tensa em vertical, cimentada na terra e perdida no céu, ressoando a tudo o que é vida ou que é vida transposta para a ARTE.

Meu coração!  Aguenta-te!  VIDA, poupa-me - sou um soldado que te serve fielmente como poucos, atento aos mais ínfimos sinais reveladores da tua presença e da tua expressão.

(A. de Gusmão)

11 de fevereiro de 2012

Divagações crepusculares...



Ainda bem que estava só. 
Ali a podia a fundo evocar. Subitamente, a sua memória 
picou-me a consciência, como um raio de luz diúrno, 
rápido, penetrante. 
Neste mesmo lugar estive há anos com sua alma.

Ela está dentro de mim como num santuário. 
Ocupa a minha capela-mor, 
e todos os outros afetos que vierem 
não serão mais que absidilos* (capelas menores), 
que florescerão apenas à volta 
da parte grande e indissolúvel deste Amor 
que me enriqueceu para sempre a vida - 
Queridíssima B.

(A. de Gurmão )
(Jardim de Braga, ao crepúsculo)
1959


9 de fevereiro de 2012

Vergílio Ferreira: "Adeus"...

Vergílio Ferreira, natural da Serra da Estrela, nasceu em 28 de janeiro de 1916 e faleceu em Lisboa em 1996. Como autor de contos e de romances, tornou-se um dos maiores escritores portugueses do século XX. Sua obra literária desenvolveu-se dentro dos princípios estéticos do neo-realismo (primeira fase) e do existencialismo que não abandonaria mais. Na vertente existencialista de sua obra, o escritor questiona a condição existencial do homem envolvido em suas tragédias, em suas buscas e opções, traduzindo a inexorável e inevitável solidão humana.
Se o romancista é extraordinário, o contista é um mestre na arte de contar histórias. No conto “Adeus” somos surpreendidos pela leveza de uma linguagem sedutoramente expressiva, densa, impregnada de sentimento e doce emoção. A narrativa, verdadeira prosa poética, é de um lirismo refinadíssimo, intenso que, em várias passagem, abre um campo de infinita beleza.
Em “Adeus” Vergilio Ferreira praticamente desconstrói o modelo tradicional do conto, aproximando da uma prosa poética. Apenas duas personagens participam, sendo uma delas – Marta - apenas presentificada pela memória do protagonista, Paulo, em um reencontro virtual de despedida com a mesma, como sugere o primeiro parágrafo do texto.

ADEUS

Não lhe pedi que viesse. Pedi-lhe só que às dez da noite, e pela primeira vez, a sua lembrança me esperasse ao caminho. Cheguei cedo e sentei-me. Quando soasse a hora, eu queria senti-la ao pé de mim, não bem no seu corpo, não bem nas suas palavras, mas apenas naquele sossego azul que tornava o mundo perfeito. No momento combinado, eu havia de respirar o sonho de quando não sabia que era sonho.

Tudo isto está errado. Vejo-lhe daqui o erro fechado e exato como um cubo de pedra. Mas sei que lá dentro não há erros de fora. Por isso, espero. Não lhe pediria que viesse. Também não tinha pedido à lua e a lua veio, precisamente, quando pensei que era bom haver lua. Não fiquei pois surpreendido, quando, à hora marcada, no caminho que vai à fonte, Marta apareceu tão leve como a sua lembrança. Percebi então que as mimosas recendiam através da noite sem medos. E que havia em roda pinheiros e veios de água e que eu estava ali no meio de tudo.

Agora mais de perto de mim, ela trazia um cântaro no braço. Mas não parara na fonte e subira o carreiro até onde, do fundo da sua casa, devia despedir-se para sempre do meu destino. Quando saiu da sombra e me viu, parou. A lua cobriu-a de noivado, a cauda do véu derramava-se por toda a terra que tínhamos pisado juntos. Assim queda, em pé diante de mim, eu senti-a verdadeira como tudo o que era verdade à nossa volta.
-Paulo!
O caminho da serra corre ali aos nossos pés. Olho a sua mancha branca, direita por entre os pinhais, até ao alto da colina. Depois é tudo a vaguidão da noite, não o escuro de passos audazes, nem a lucidez bastante dos passos exatos, mas apenas uma luz velada, boa para todos os caminhos de quem não escuta as razões do caminhar.
Então ela pousou o cântaro e o restolho rangeu quando se sentou. Eu tinha a certeza de que ela iria falar de qualquer coisa misteriosa e longínqua, qualquer coisa já morta, mas onde pudéssemos, dali donde estávamos, ver-nos ainda vivos, sem pensamentos no depois em que agora podíamos pensar. Tinha a certeza de que ela me levaria para um presente sem memória do passado, nem receio de um passado no futuro. Eu estava ali de mãos abertas e olhos dóceis, encostado a um tronco de pinheiro. Então ela contou dos patos que criara nessa Primavera, das manhãs altas de sol, do pão que vira semear. E eu gostei, naquela hora harmoniosa, de que ela falasse nos patos, no pão e nas manhãs.
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Só agora sou a pessoa que sempre quis ser.


Há tempos passados, uma pessoa muito jovem insatisfeita com uma resposta minha às suas irreverências, chamou-me de velha e “Vovozinha careta”, com petulante tom de zombaria e insolente desrespeito que bem caracterizam certos jovens criados sem limites e sem as noções básicas de boa educação. Não fiquei chocada nem indignada, porque se há uma coisa com a qual eu convivo muito bem é com a minha idade e com as mudanças no meu físico, operadas pela passagem do tempo. Não nego a idade, não perdi a vaidade, amo a vida e não saberia viver como vive a maioria das pessoas da minha faixa etária que equivocadamente, acha que ocupação de idosas é fazer crochet, contar historinhas para netos e esperar pela morte rezando terços. Tanta insipidez e em suas tediosas vidas é triste... Para mim não serve. 

Ontem, calhou de chegar-me uma mensagem pps que me trazia um texto, de autor desconhecido, com o qual me identifiquei profundamente, como se fosse eu mesma quem o tivesse escrito, falando de mim mesma. Como sei que, algumas pessoas que freqüentam o blog estão se aproximando da terceira idade, ou têm suas mãe já idosas, resolvi postá-lo para que reflitam sobre o que é mesmo isto que chamam de velhice, o que é ser uma velha, como se sentem as pessoas que se aproximam da idade avançada, se é possível não envelhecer interiormente, avançando nos anos com a energia, a disposição para viver em plenitude, fruindo os prazeres e as alegrias que a vida proporciona. Vejamos o texto:

“Um dia desses uma jovem me perguntou como eu me sentia sobre ser velha. Levei um susto, porque eu não me vejo como uma velha. Ao notar minha reação, a garota ficou embaraçada, mas eu expliquei que era uma pergunta interessante, que pensaria a respeito e depois voltaria a falar com ela. Pensei e concluí: a velhice é um presente. Eu sou agora, provavelmente pela primeira vez na vida, a pessoa que sempre quis ser. Oh, não meu corpo! Fico incrédula muitas vezes ao me examinar, ver as rugas, a flacidez da pele, os pneus rodeando o meu abdome, através das grossas lentes dos meus óculos, o traseiro rotundo e os seios já caídos. E constantemente examino essa pessoa velha que vive em meu espelho (e que se parece demais com minha mãe), mas não sofro muito com isso. 
Não trocaria meus amigos surpreendentes, minha vida maravilhosa, e o carinho de minha família por menos cabelo branco, uma barriga mais lisa ou um bumbum mais durinho. Enquanto fui envelhecendo, tornei-me mais condescendente comigo mesma, menos crítica das minhas atitudes. Tornei-me amiga de mim mesma. Não fico me censurando se quero comer um bolinho-de-chuva a mais, ou se tenho preguiça de arrumar minha cama, ou se compro um anãozinho de cimento que não necessito, mas que ficou tão lindo no meu jardim. Conquistei o direito de matar minhas vontades, de ser bagunceira, de ser extravagante. 
Vi muitos amigos queridos deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com o envelhecimento. Quem vai me censurar se resolvo ficar lendo ou jogar paciência no computador até às 4 da manhã e depois só acordar ao meio-dia? Dançarei ao som daqueles sucessos maravilhosos das décadas de 50, 60, 70 e se, de repente, chorar lembrando de alguma paixão daquela época, posso chorar mesmo! Andarei pela praia em um maiô excessivamente esticado sobre um corpo decadente, e mergulharei nas ondas e darei pulinhos se quiser, apesar dos olhares penalizados dos outros. Eles, também, se conseguirem, envelhecerão. 
Sei que ando esquecendo muita coisa, o que é bom para se poder perdoar. Mas, pensando bem, há muitos fatos na vida que merecem ser esquecidos. E das coisas importantes, eu me recordo freqüentemente. Certo, ao longo dos anos meu coração sofreu muito. Como não sofrer se você perde um grande amor, ou quando uma criança sofre, ou quando um animal de estimação é atropelado por um carro? Mas corações partidos são os que nos dão a força, a compreensão e nos ensinam a compaixão. Um coração que nunca sofreu é imaculado e estéril e nunca conhecerá a alegria de ser forte, apesar de imperfeito. 
Sou abençoada por ter vivido o suficiente para ver meu cabelo embranquecer e ainda querer tingi-los ao meu bel prazer, e por ter os risos da juventude e da maturidade gravados para sempre em sulcos profundos em meu rosto. Muitos nunca riram, muitos morreram antes que seus cabelos pudessem ficar prateados. Conforme envelhecemos, fica mais fácil ser positivo. E ligar menos para o que os outros pensam. Eu não me questiono mais. Conquistei o direito de estar errada e não ter que dar explicações Assim, respondendo à pergunta daquela jovem graciosa, posso afirmar: “Eu gosto de ser velha”. Libertei-me! 
Gosto da pessoa que me tornei. Não vou viver para sempre, mas enquanto estiver por aqui, não desperdiçarei meu tempo lamentando o que poderia ter sido, ou me preocupando com o que virá. E comerei sobremesa todos os dias e repetirei, se assim me aprouver… E penso que nunca me sentirei só. Sou receptiva e carinhosa, e se amizades antigas teimam em partir antes de mim, outras novas, assim como você, vêm a mim buscar o que terei sempre para dar enquanto viver: experiência e muito amor…”

Pode ser que para muitas pessoas a velhice seja sinônima de decadência física e mental, seja a fase da anulação do indivíduo, seja o marco para a desistência de fazer parte integrante e atuante na dinâmica da vida, seja sinônimo de inutilidade ou que represente a interdição do sonho e dos desejos, a abdicação da dignidade e da auto estima de quem mesmo estando vivo, torna-se o espectro de si mesmo. 
Para mim, a velhice é exatamente como a encara a jovem velhinha do texto: uma festa, uma celebração da vida e um ato de agradecimento a Deus por ter conseguido chegar até onde já cheguei, tão bem e tão saudável, varando as décadas, sem deixar jamais que a jovem que em mim existe se vá embora



4 de fevereiro de 2012

Inquietação



Foi fácil exterminar
os deuses e semideuses
de todos os meus sonhos,
de toda a minha inquietação.

Mas ao fim de todas as mortes,
nos limites do silencio,
há um fantasma sem nome,
oblíqua presença de nada.



2 de fevereiro de 2012

Verdade, sentimento e idéias.



Não interrogo muito a verdade que cada escritor ou pensador expressa como tal. 
Nenhuma dessas "verdades" nos podem ou devem alimentar ou socorrer.  
O que importará  é que cada  homem construa  a  sua verdade, como imperativo do seu 
ser, como "instrumento" da sua unidade espiritual.


Sentimentos não se constituem, nem pela memória. 
Uma vez vividos são passados.
E só o sentir é em nós absoluto.
 O sentimento não se pode discutir, porque nada adianta 
para a nossa realidade existencial.
 Podem condenar-se eticamente certos sentimentos, ou expressões do nosso sentimento.  
Mas, o sentimento em si  é  uma  realidade inapagável e indiscutível.
Já não são assim as idéias, 
porque todas se podem discutir, pois nunca se é detentor da verdade, absoluta e irrefragável.  
Lógica e dialeticamente podem defender-se os mais evidentes absurdos. 
Os sentimentos têm a sua lógica  interior, de associação e desenvolvimento, mas a
 nossa lógica mental é inoperante perante esse fluir inconsciente e espontâneo 
da nossa vida afetiva.

[A. de Gusmão]

Noite de Plenilúnio...



Oh! saudação de prata, 
com sorriso mais misterioso que o da Gioconda!
 Lua cheia, que me aparece de repente 
no claro azul do céu noturno, 
entre as afastadas estrelas, e um planeta (saturno?)
Que maravilha, sempre maravilha! 
Uma mensagem minha foi imediatamente lançada
para o espaço pelo meu pensamento, 
encantado pelo espetáculo de luz 
pura e silenciosa. 

(A. de Gusmão)
(18/11/1975, horas depois de um eclípse que não vi)


A música silenciosa da Natureza.



Há na Natureza como que uma música silenciosa,
implícita nas formas, imanente ao seu ritmo interior e originário.
Quer dizer, não é preciso que o homem crie, de fato, música de concerto.
A música existe de per si na própria vida,
não apenas na marcha das coisas,
no seu ritmo,
mas em cada instante em que a a vida for intensamente sentida.

[A. de Gusmão1962]