[Valid RSS] [Valid RSS] [Valid RSS] Labirintos e Fascínios: A Angústia de nosso tempo, Gustavo Corção

30 de novembro de 2012

A Angústia de nosso tempo, Gustavo Corção



A grande angústia de nosso tempo é um sentimento de excomunhão. Não sentindo em si uma existência própria, uma atividade própria, o homem precisa desesperadamente de um apoio exterior, muito mais, e muito mais nervosamente do que as exigências de sua natureza. Um andaime que lhe falte, ele logo se sente desvairadamente infeliz, como quem, num pesadelo, se achasse numa sala onde todo mundo se divertisse em chinês. Desajustado, não compreendendo o chinês em que os outros riem e cantam, o excluído só pode fazer uma coisa que não exige sociabilidade: chorar. E olhe lá! O resultado aí está: uma sociedade em pânico, que tudo aposta na estridência e na visibilidade; uma sociedade de aterrorizados que pisa os pobres, os pequeninos, os doentes, na fúria de atingir um estrado em praça pública, de onde possam fazer, uns aos outros, sinais febris e sem significação. 
Para a moça que se debruça ansiosa sobre um figurino, a fim de saber o que deve fazer com seus próprios cabelos; para o jovem poeta que procura qual é o nome em voga, o livro que deve ser lido e falado; para a patroa que vai à conferência; para a cozinheira que vai ao carnaval, o que importa, acima da realidade do cabelo, da poesia, do humanismo e do pandeiro, é entrar no grande palco iluminado, e pegar a deixa dos outros personagens desse drama confuso, que três bilhões de atores mal ensaiados representam, durante anos e anos, à luz da desdenhosa Aldebarã.