[Valid RSS] [Valid RSS] [Valid RSS] Labirintos e Fascínios: A Angústia do nosso tempo

29 de março de 2012

A Angústia do nosso tempo


A grande angústia de nosso tempo é um sentimento de excomunhão. Não sentindo em si uma existência própria, uma atividade própria, o homem precisa desesperadamente de um apoio exterior, muito mais, e muito mais nervosamente do que as exigências de sua natureza. Um andaime que lhe falte, ele logo se sente desvairadamente infeliz, como quem , num pesadelo , se achasse nua sala onde todo o mundo se divertisse em chinês. Desajustado, não compreendendo o chinês em que os outros e cantam, o excluído só pode fazer uma coisa que não exige sociabilidade: chorar. E, olhe lá! O resultado aí está: uma sociedade em pânico, que tudo aposta na estridência e na visibilidade; uma sociedade de aterrorizados que pisa os pobres, os pequeninos, os doentes, na fúria de atingir um estrado na praça pública, de onde possam fazer, uns aos outros, sinais febris e sem significação.
Para a moça que se debruça ansiosa sobre um figurino, a fim de saber om que deve fazer com seus próprios cabelos; para o jovem poeta que procura qual é o nome em voga, o livro que deve ser lido e falado;para a patroa que vai à conferência; para a cozinheira que vai ao carnaval, o que importa, acima da realidade do cabelo, da poesia, do humanismo e do pandeiro, é entrar no grande palco iluminado, e pegar a deixa dos outros personagens desse drama confuso, que três bilhões de atores mal ensaiados representam, durante anos e anos, à luz da desdenhosa Aldebarã
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AUTOR: Gustavo Corção,do livro Lições de abismo, Agir, Rio, 1974.



Esse texto, escrito pelo cronista brasileiro Gustavo Corção, em 1954, aplica-se esplendidamente aos dias atuais, como se tivesse sido escrito hoje. Uma leitura atenta do mesmo, fazendo as devidas comparações  com a sociedade desse terceiro milênio, conduzirá à certeza de que a angústia que se vive em 2012 radica no mesmo sentimento de incomunicabilidade, de exclusão, de desajuste do homem com o meio, causados pelos mesmos motivos enumerados pelo autor ou por outros semelhantes.

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