[Valid RSS] [Valid RSS] [Valid RSS] Labirintos e Fascínios: Vergílio Ferreira: "Adeus"...

9 de fevereiro de 2012

Vergílio Ferreira: "Adeus"...

Vergílio Ferreira, natural da Serra da Estrela, nasceu em 28 de janeiro de 1916 e faleceu em Lisboa em 1996. Como autor de contos e de romances, tornou-se um dos maiores escritores portugueses do século XX. Sua obra literária desenvolveu-se dentro dos princípios estéticos do neo-realismo (primeira fase) e do existencialismo que não abandonaria mais. Na vertente existencialista de sua obra, o escritor questiona a condição existencial do homem envolvido em suas tragédias, em suas buscas e opções, traduzindo a inexorável e inevitável solidão humana.
Se o romancista é extraordinário, o contista é um mestre na arte de contar histórias. No conto “Adeus” somos surpreendidos pela leveza de uma linguagem sedutoramente expressiva, densa, impregnada de sentimento e doce emoção. A narrativa, verdadeira prosa poética, é de um lirismo refinadíssimo, intenso que, em várias passagem, abre um campo de infinita beleza.
Em “Adeus” Vergilio Ferreira praticamente desconstrói o modelo tradicional do conto, aproximando da uma prosa poética. Apenas duas personagens participam, sendo uma delas – Marta - apenas presentificada pela memória do protagonista, Paulo, em um reencontro virtual de despedida com a mesma, como sugere o primeiro parágrafo do texto.

ADEUS

Não lhe pedi que viesse. Pedi-lhe só que às dez da noite, e pela primeira vez, a sua lembrança me esperasse ao caminho. Cheguei cedo e sentei-me. Quando soasse a hora, eu queria senti-la ao pé de mim, não bem no seu corpo, não bem nas suas palavras, mas apenas naquele sossego azul que tornava o mundo perfeito. No momento combinado, eu havia de respirar o sonho de quando não sabia que era sonho.

Tudo isto está errado. Vejo-lhe daqui o erro fechado e exato como um cubo de pedra. Mas sei que lá dentro não há erros de fora. Por isso, espero. Não lhe pediria que viesse. Também não tinha pedido à lua e a lua veio, precisamente, quando pensei que era bom haver lua. Não fiquei pois surpreendido, quando, à hora marcada, no caminho que vai à fonte, Marta apareceu tão leve como a sua lembrança. Percebi então que as mimosas recendiam através da noite sem medos. E que havia em roda pinheiros e veios de água e que eu estava ali no meio de tudo.

Agora mais de perto de mim, ela trazia um cântaro no braço. Mas não parara na fonte e subira o carreiro até onde, do fundo da sua casa, devia despedir-se para sempre do meu destino. Quando saiu da sombra e me viu, parou. A lua cobriu-a de noivado, a cauda do véu derramava-se por toda a terra que tínhamos pisado juntos. Assim queda, em pé diante de mim, eu senti-a verdadeira como tudo o que era verdade à nossa volta.
-Paulo!
O caminho da serra corre ali aos nossos pés. Olho a sua mancha branca, direita por entre os pinhais, até ao alto da colina. Depois é tudo a vaguidão da noite, não o escuro de passos audazes, nem a lucidez bastante dos passos exatos, mas apenas uma luz velada, boa para todos os caminhos de quem não escuta as razões do caminhar.
Então ela pousou o cântaro e o restolho rangeu quando se sentou. Eu tinha a certeza de que ela iria falar de qualquer coisa misteriosa e longínqua, qualquer coisa já morta, mas onde pudéssemos, dali donde estávamos, ver-nos ainda vivos, sem pensamentos no depois em que agora podíamos pensar. Tinha a certeza de que ela me levaria para um presente sem memória do passado, nem receio de um passado no futuro. Eu estava ali de mãos abertas e olhos dóceis, encostado a um tronco de pinheiro. Então ela contou dos patos que criara nessa Primavera, das manhãs altas de sol, do pão que vira semear. E eu gostei, naquela hora harmoniosa, de que ela falasse nos patos, no pão e nas manhãs.
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Agora, todo o campo e toda a serra abriam num místico perfume à lua e à criação. Não fugíamos propriamente à dor do momento; apenas escavávamos com os dedos o chão da nossa angústia, para tocarmos o que o vento cobrira. Depois ficamos de novo em silêncio. Tínhamos mil coisas a dizer, mas todas elas ficavam tão perto, que podiam estrangular-nos, se quisessem. Era conveniente dizer delas não o corpo rigoroso de unhas e dentes, não os pés de botas cardadas, mas apenas o bafo ligeiro ou os olhos que à distância não fossem senão olhos de olhar. Por isso, ela me perguntou, quase assustada, quase supersticiosa de turvar os rios e os lagos de lua, coalhados aos nossos pés:
-Paulo! Por que escolheste esta vida?
A aldeia estava no fundo, quieta, sem respirar, os cães uivavam das eiras para o céu. Ao longe, na serra em frente, um comboio silvou pela noite fora. Ouvia-se perfeitamente o martelar das ferragens e o apito. E eu pensei: “Vai chover. Amanhã ou depois chove. Quando se ouve o comboio chove sempre”.
-Por que escolheste esta vida?
Agora a pergunta era tão clara, que eu não achei uma sombra para me esconder. De outras vezes, outra gente me perguntara o mesmo. E nunca soube responder. Falavam-me de fora, de outro mundo, com uma linguagem diferente. E assim, as nossas idéias jogavam à cabra-cega. Eu próprio, quando queria entender-me, espreitando-me donde me não suspeitasse, não tinha razões talhadas à medida do meu sonho. Os princípios do senso da justiça talvez tivessem envelhecido e não pudessem acompanhar o meu anseio.
Só metido dentro de mim eu me todo e sem razões. Hei - de um dia tombar e arrefecer. Talvez então seja possível a outros meterem em leis o que gelou do meu esforço. Até lá, é difícil. Qualquer coisa me está forçando os limites, mesmo da regra que julgo dar-me. Um vento largo ergueu-se não sei donde e arrebatou-me.
Lembra-me bem como tudo aconteceu. Mas, quando penso no que eu fui, não me parece que tenha acontecido nada de extraordinário. É como se eu tivesse tivesse já nascido para isso. Meu pai às vezes dizia: “hoje vou ter sorte”; ou: “hoje vai-me acontecer uma desgraça”. O mais difícil era convencer-se de que seria assim. Porque depois, durante o dia, só tinha de andar atento para achar a desgraça ou a sorte que profetizara. Mas nunca fui capaz de saber que arranjos da vida o faziam acreditar assim na cor do seu destino diário. Havia sol ou chuva no céu, nem sempre o comer estava pronto a horas, às vezes o filho mais novo chorava sem razões adultas, ou qualquer coisa parecida. Mas é degradante pensar que fato desses decidisse das certezas de meu pai.
-Como explicar-te porque parti?
Tenho pés para andar e olhos para ver. Posso sentar-me ou posso fechar os olhos e dizer que não há sol nem estradas. Mas eu sei que há estradas e sol e que os olhos vêem e os pés andam. Por mais que eu queira, quando sei por dentro que uma coisa está certa. E ainda que os outros saibam que está errada, isso não me ajuda.
-Não me ajuda nada, Marta.
Mas como convencê-la? As razões são tanto o que somos, que só nascendo outra vez as poderemos renegar. Talvez Marta o acreditasse enfim, porque, sentada, enlaçou as mãos à frente dos joelhos unidos e calou-se de vez. Já não tínhamos que dizer, mas o eco das nossas vozes e o vapor quente da nossa presença embaciavam-nos a vontade. Um fluido estranho dissolvia-nos, e não era fácil assim acharmos o que nos tornava distintos. A lua vogava agora pela água alta do céu. Marta foi a primeira a erguer-se. Então eu ergui-me também e apertei-lhe as mãos devagar:

-Adeus!

Caminhei pela vereda branca, lavado numa pureza desconhecida, anterior à minha humanidade, e onde, no entanto, eu me sentia todo inteiro. Quando cheguei ao topo da colina, olhei ainda atrás a ausência de Marta. Mas, lentamente, surpreso e todavia calmo, fui descobrindo Marta em pessoa, em pé, no meio do caminho, vestida de lua, esperando decerto como eu que toda a serra e toda aldeia e tudo o que nos fora prometido ficasse enfim tão deferente como quando ainda não tínhamos nascido.

Vergílio Ferreira. Contos: Lisboa, (4ª edição) - Bertrand Editora - 1991