[Valid RSS] [Valid RSS] [Valid RSS] Labirintos e Fascínios: A Crônica, Amor e outros males, de Rubem Braga.

22 de fevereiro de 2012

A Crônica, Amor e outros males, de Rubem Braga.

 
A Crônica

A crônica não é um gênero maior, já escreveu Antonio Candido. Graças a Deus, completa o crítico, porque sendo assim ela fica perto de nós. (...) Na sua despretensão, humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição.
Fruto do jornal, onde aparece entre notícias efêmeras, a crônica é um gênero literário que se caracteriza por estar perto do dia-a-dia, seja nos temas, ligados à vida cotidiana, seja na linguagem despojada e coloquial do jornalismo. Mais do que isso, surge inesperadamente, como um instante de alívio para o leitor fatigado com a frieza da objetividade jornalística.
De extensão limitada, essa pausa se caracteriza exatamente por ir contra a tendências fundamentais do meio em que aparece, o jornal diário.
 
AMOR E OUTROS MALES
Não, minha senhora, não amo ninguém; o oração está velho e cansado. Mas a lembrança que tenho de meu último amor, anos atrás, foi exatamente isso que me inspirou esse vulgar adjetivo – "incômodo". Na época eu usaria talvez adjetivo mais bonito, pois o amor, ainda que infeliz, era grande; mas é uma das tristes coisas desta vida sentir que um grande amor pode deixar apenas uma lembrança mesquinha; daquele ficou apenas esse adjetivo, que a aborreceu.
Não sei se vale a pena lhe contar que a minha amada era linda; não, não a descreverei, porque só de revê-la em pensamento alguma coisa dói dentro de mim. Era linda, inteligente, pura e sensível – e não me tinha, nem de longe, amor algum; apenas uma leve amizade, igual a muitas outras e inferior a várias. A história acaba aqui; é, como vê, uma história terrivelmente sem graça, e que eu poderia ter contado em uma só frase. Mas o pior é que não foi curta. Durou, doeu e – perdoe, minha delicada leitora – incomodou.
Eu andava pela rua e sua lembrança era alguma coisa encostada em minha cara, travesseiro no ar; era um terceiro braço que me faltava, e doía um pouco; era uma gravata que me enforcava devagar, suspensa de uma nuvem. A senhora acharia exagerado se eu lhe dissesse que aquele amor era uma cruz que eu carregava o dia inteiro e à qual eu dormia pregado; então serei mais modesto e mais prosaico dizendo que era como um mau jeito no pescoço que de vez em quando doía como bursite.
Eu já tive um mês de bursite, minha senhora; dói de se dar guinchos, de se ter vontade de saltar pela janela. Pois que venha outra bursite, mas não volte nunca um amor como aquele. Bursite é uma dor burra, que dói, dói, mesmo, e vai doendo; a dor do amor tem de repente uma doçura, um instante de sonho que mesmo sabendo que não se tem esperança alguma a gente fica sonhando, como um menino bobo que vai andando distraído e de repente dá uma topada numa pedra. E a angústia lenta de quem parece que está morrendo afogado no ar, e o humilde sentimento de ridículo e de impotência, e o desânimo que às vezes invade o corpo e a alma, e a "vontade de chorar e de morrer", de que fala o samba?
Por favor, minha delicada leitora; se, pelo que escrevo, me tem alguma estima, por favor: me deseje uma boa bursite.
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Rubem Braga (1913-1990) foi cronista, poeta, repórter, tradutor e crítico de artes plásticas. Escreveu grandes obras como: Casa do Braga, O Conde e o Passarinho e Três Primitivos . Tornou-se conhecido do grande público ao escrever crônicas em jornais de grande circulação.
Na crônica de Rubem Braga retrata um fato do cotidiano, porém a maneira de narrar o fato dá a essa crônica a característica da universalidade que distingue o autor tornando-o um renovador da crônica brasileira. O assunto é simples: explicar a uma leitora, que lhe enviou uma carta, os motivos que o levam a considerar o amor uma fonte de males, uma coisa incômoda, a partir da sua própria experiência.